Sônia
sempre chegava de manhã reclamando de muito sono.
Eu também.
O mais estranho é que ela saía cedo do escritório todos os dias.
Eu não.
Mas, contraditoriamente, quando ela passava e dizia “bom dia”, todos subitamente
despertavam.
Hoje saímos no mesmo horário e ofereci uma carona até a sua casa.
Fui convidado a entrar e tomar um vinho.
Deitamos juntos, mas não conseguíamos dormir.
Então, descobri o motivo do cansaço matinal: seus cabelos dourados lembram o
Sol.
E o Sol nos lembra da hora de acordar.
Puxei seu corpo para perto do meu e projetei minha sombra nele.
Fui seu eclipse “sonar”.
Ela, minha eterna insônia.
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Microconto - [70]
Desmarcou muitos encontros.
Quando lhe foi conveniente, aceitou o convite para ir jantar.
Atrasado, chegou ao restaurante com uma pergunta cínica:
"- Estava com saudade?".
Ela levantou da cadeira e, antes de ir embora, respondeu com um sorriso sincero:
"- De mim.".
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Microconto - [69]
Igual a qualquer criança de três anos,
Betina odeia peixe.
Igual a qualquer criança de três anos,
Betina corre para o colo do pai
quando o pescador volta do trabalho.
Betina odeia peixe.
Igual a qualquer criança de três anos,
Betina corre para o colo do pai
quando o pescador volta do trabalho.
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Microconto - [68]
Wágner trabalha há 45 anos como porteiro no mesmo prédio.
Faz fofoca de tudo que acontece na rua,
mas nunca reparou que,
por causa da cabine revestida de vidro fumê,
a recíproca da sua importância era ignorada pelos passantes.
Faz fofoca de tudo que acontece na rua,
mas nunca reparou que,
por causa da cabine revestida de vidro fumê,
a recíproca da sua importância era ignorada pelos passantes.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Microconto - [67]
Meu sentimento de inexistência era reforçado
quando alguém me dizia para eu não falar sozinho,
sendo que eu estava conversando comigo mesmo.
quando alguém me dizia para eu não falar sozinho,
sendo que eu estava conversando comigo mesmo.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Microconto - [66]
São Paulo.
Ano: 2345.
O carro parou no semáforo.
Júlio olhou para o painel onde a rota estava previamente traçada no GPS, teve uma epifania e comentou com o amigo que estava ao seu lado:
"- Se temos o volante da vida em nossas mãos, por que preferimos deixá-la no piloto automático?".
"- Obviamente, por questões de segurança.".
"- Mas, se a única coisa óbvia sobre viver é a morte, qual o motivo de querermos estar sempre seguros?".
O sinal ficou verde.
O carro andou e atropelou o pensamento de Júlio, partindo sem prestar socorro.
Ano: 2345.
O carro parou no semáforo.
Júlio olhou para o painel onde a rota estava previamente traçada no GPS, teve uma epifania e comentou com o amigo que estava ao seu lado:
"- Se temos o volante da vida em nossas mãos, por que preferimos deixá-la no piloto automático?".
"- Obviamente, por questões de segurança.".
"- Mas, se a única coisa óbvia sobre viver é a morte, qual o motivo de querermos estar sempre seguros?".
O sinal ficou verde.
O carro andou e atropelou o pensamento de Júlio, partindo sem prestar socorro.
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